"Não somos lixo e nem bicho, somos humanos. Se na rua estamos é porque nos desencontramos". Verso de um poema escrito por uma pessoa em situação de rua e que estampa as páginas iniciais do Manual Sobre o Cuidado à Saúde Junto à População em Situação de Rua, criado pelo Ministério da Saúde, em 2012, o trecho denuncia a luta desse público para romper a invisibilidade que os persegue apesar da falta de endereço fixo.

Foto: Eliene Resende

Segundo um levantamento realizado em 2016 - o último sobre o tema - pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mais de 101 mil pessoas vivem nas ruas do Brasil. A incompatibilidade entre o crescimento no número de pessoas que vivem nas ruas no país e o avanço de políticas públicas e sociais para o mesmo coletivo, não impede o surgimento de casos inspiradores, como o Centro de Saúde Carlos Chagas (CSCC), em Belo Horizonte, referência nacional no atendimento à População em Situação de Rua (PSR) e que, desde 2002, atua para garantir o acesso à saúde desses cidadãos.

De acordo com Júlia Vianna, agente comunitária de saúde do Carlos Chagas, trabalhar com esse público exige muita parceria entre os envolvidos. "São pessoas que já estão com déficit de muitas questões não só de saúde, mas, também, falta acesso à moradia, à emprego e às condições mínimas de sobrevivência. Por isso no momento da abordagem não podemos focar só na saúde, é preciso ter informações para ofertar sobre quais abrigos existem nas proximidades, o que eles podem acessar de serviço e como providenciar documentos", exemplifica.

A enfermeira Alice Duarte, da equipe do Programa de Saúde da Família (PSF) do CSCC, conta os pormenores do trabalho desempenhado em conjunto com Júlia. "Temos visitas em campo por demanda espontânea, por casos mais graves que necessitam de acompanhamento semanal ou conforme necessidade. Além disso, o médico de apoio realiza a ação educativa de palestra sobre temas de interesse em cima do que os próprios usuários pedem e conforme as morbidades mais frequentes entre esse público como tuberculose, hipertensão e Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs)", explica.

Foto: Jéssica Torres - Alice Duarte, enfermeira do Centro de Saúde Carlos Chagas.

A enfermeira ressalta a importância do acolhimento para o trabalho de prevenção. "É neste momento que a gente mais consegue fazer educação em saúde nessa demanda espontânea. Por ser uma população muito singular e com um alto índice de absenteísmo, não é possível trabalhar muito bem o agendamento com retorno. Ou seja, a gente tenta fazer tudo que deve ser feito, por meio de um acompanhamento mais holístico e levantando todo tipo de demanda no primeiro atendimento", revela Alice.

- Conheça o "manual sobre o cuidado à saúde junto a população em situação de rua"

Excesso de demandas e falhas de infraestrutura comprometem atuação das equipes de saúde

Neste ano, o Centro de Saúde Carlos Chagas realizou um diagnóstico que permitiu mapear o perfil demográfico e epidemiológico desse público, totalizado em 1483 indivíduos, em sua maioria homens (1341), adultos entre 20 e 59 anos, sendo 66 idosos. Dessa parcela, 7 possuem tuberculose, 506 são usuários de álcool e drogas, 522 são tabagistas e 298 possuem transtorno mental.

Para o psiquiatra Leonardo Agostini, referência técnica das equipes do Centro de Saúde Carlos Chagas e do Oswaldo Cruz, a dificuldade para trabalhar com a população em situação de rua na capital mineira consiste na inadequação para coordenar as ações de promoção à saúde. "Para driblar esse problema, buscamos fazer reuniões intersetoriais com a assistente social e com outros equipamentos de saúde que são intrasetoriais, como a UPA centro-sul para discutir casos de pacientes que estão frequentando a sala de emergência e urgência sem estarem inseridos em um percurso assistencial", explica.
A existência de um sistema e um prontuário próprios para os equipamentos federal, estadual e municipal dificulta a atuação das equipes de saúde. "Apesar de o usuário ser o mesmo, o prontuário não é único e os sistemas não conversam entre si", conta Leonardo. Se por um lado há impasses, por outro existem soluções. "A composição de uma equipe de PSF no Oswaldo Cruz, localizado no bairro Barro Preto, ajuda muito, pois nessa região já havia um Centro POP, que tinha como referência apenas o Carlos Chagas, no Santa Efigênia. Era difícil para os agentes comunitários de saúde do Carlos Chagas irem até lá", revela o psiquiatra.

Foto: Jéssica Torres Leonardo Agostini, médico psiquiatra, e referência técnica das equipes do Centro de Saúde Carlos Chagas e Oswaldo Cruz.

"Inclusive, esse Centro POP foi um dos primeiros do país depois que a política se nacionalizou, então há vários aspectos em que Belo Horizonte foi pioneira. Digamos que, diante de um fenômeno que vinha acontecendo, isto é, o crescimento de pessoas em situação de rua no Brasil, BH se preparou um pouco mais em termos de assistência pública", considera Leonardo.

Já a enfermeira Alice Duarte, encara como um problema de saúde pública os impasses com as pessoas em situação de rua. "Tem muita gente que às vezes tenta sair das ruas mas é muita pouca oferta de reinserção social, de emprego, o que sempre vai gerar um furo na rede", revela. Para ela, vira um ciclo vicioso porque eles não conseguem sair da situação que se encontram.

Os riscos do despreparo no atendimento às pessoas em situação de rua

De acordo com a médica clínica do Centro de Saúde Oswaldo Cruz, Isabella Cançado, é crucial formar um vínculo com esses usuários no primeiro momento para que haja retorno. "Ter empatia desde à recepção é fundamental para esse laço bem como evitar insistir que eles mostrem documentos de identificação e de residência, pois é uma questão muito sensível para as pessoas em situação de rua e o atendimento é feito independente disso", conta.

Foto: Jéssica Torres Isabella Cançado, médica clínica do Centro de Saúde Oswaldo Cruz.

Assistente social do Centro de Saúde Carlos Chagas, Mariana Borba ressalta a importância do atendimento humanizado. "Esse público não tem a característica de prevenção, por isso a demanda chega para a gente já agravada. Em sua maioria, eles têm envolvimento com álcool e drogas, algum tipo de transtorno mental e vínculos rompidos com a família, situações que geram mais sofrimento ainda. A abordagem humanizada é fundamental para que eles se sintam acolhidos, permitindo que a equipe possa promover cuidados preventivos durante aquele momento e para que possam voltar", define.

Para Alice Duarte, a rede precisa estar mais capacitada e aberta para atender essa população específica. "É necessário ter um olhar diferenciado e trabalhar mais com parâmetro de epidemiologia e rastreamento. Lembrar que o índice de doenças infectocontagiosas entre essas pessoas é muito maior e, por isso, realizar um acompanhamento com olhar mais crítico. O olhar deve ser diferenciado não só na saúde, mas no geral, trabalhando mais em conjunto e melhorando as formas de comunicação na rede", avalia.

A agente comunitária de saúde Júlia Vianna defende que a Estratégia de Saúde da Família (ESF) é elaborada justamente para atender as questões mais vulneráveis e nada reflete mais vulnerabilidade do que as pessoas em situação de rua. "Infelizmente, já recebi ligação de uma unidade básica me perguntando o que é preciso fazer para atender uma pessoa em situação de rua. Me limitei a responder: 'imagina que seja seu pai e aí depois você o atende'. Se há resistência do Centro de Saúde para atender esse público, eles devem repensar qual o papel da ESF", finaliza.

Foto: Jéssica Torres  - A Assistente Social, Mariana Borba (esquerda) e a Agente Comunitária de Saúde Júlia Vianna (Direita), do Centro de Saúde Carlos Chagas.

Ouça o Podcast com os bastidores da produção dos conteúdos sobre a saúde da população de rua em BH

Autores:
Redação: Jéssica Torres
Infográficos: Clara Karmaluk
Subeditoras: Eliene Resende; Fernanda Corrêa; 
Editora: Carolina Mendes

Produção: Especialização em Comunicação e Saúde
Professor responsável: Wander Veroni
Coordenador de Curso: Jean Alves

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